05.01.2016

Obituário surpresa

Obituário surpresa

A maioria das pessoas acha que obituários são coisas tristes de se fazer. Que é uma profissão amargurada.

Bom, essa sou eu, Liza. Tenho 22 anos. Dizem que sou encantadora e ingênua para que esse seja meu primeiro emprego como escritora.

Pois é, ninguém entende como posso amar escrever e não desmotivar com o trabalho que consegui.

Escrever obituários, na verdade, está bem longe de ser algo penoso.

Eu não descrevo como as pessoas morrem. Descrevo suas relações de epifania de vida.

Como hoje, por exemplo: eu estava saindo em meu horário de almoço para procurar algo para comer quando um senhor me agarrou.

-Senhorita Liz Stanley?

-Sim, eu mesma.

-Preciso que escreva o obituário de minha esposa antes que ela morra.

Peraí, gente, eu NUNCA escrevi um obituário de alguém VIVO!

– O senhor deve estar confuso… Obituários são escritos quando as pessoas passam dessa para melhor. – Desculpem, eu não consegui pensar em uma frase melhor naquele momento.

– Na verdade, senhorita, eu sei exatamente o que quero que seja dito sobre a mulher que me acompanhou a vida toda. Quero que ela veja ainda em vida…

Qual seria o problema de inovar? Se ainda tem dúvidas, aceitei o trabalho. Acreditem, comecei a escrever naquele mesmo momento.

– Posso começar a falar?

-Sou todo ouvidos…

Julia Quinn, alma gêmea, mãe, avó e bizavó.
Deixa ensinamentos para toda a vida: 
Se divida sua cama com os filhos, netos e até os gatos e cachorros. 
Vá a um hospital e abrace a todos. Escute suas histórias. Grave seus nomes e feições. 
Nunca diga nada de mal sobre alguém e nunca escutará nada sobre você. 
Diga sempre o que sente. A vida é só uma para fazer charme com seus dramas. 
Ajude sempre os outros. Mesmo que lhe falte dinheiro. Sempre tem alguém que precisa mais.
Tantas outros momentos de sua vida foram divididos sabiamente com as pessoas ao seu redor que carregarão suas palavras a diante. 
                                         Com amor, Família Quinn.

Ao terminar de escrever, olhei bem no fundo dos olhos do senhor que me pediu com tanto carinho por essas poucas palavras.  Ele estava radiante!

Abriu sua carteira e desamassou suas economias para me pagar.

-Obrigada senhorita, seu dom de passar sentimentos para o papel fará com que a alma de minha esposa vá na mais plena paz que poderia.

Não pude deixar de sorrir e concordei com a cabeça, ainda na dúvida se deveria aceitar aqueles trocados por um trabalho feito com amor.

Vi o senhor se afastar aos poucos e quando ele se aproximou do meio fio, virou-se uma última vez para abanar sua mão dando um adeus não intencionado.

Um carro desgovernado veio em sua direção, arremessando-o metros adiante.

O choque me parou. Fiquei sentada lá olhando toda a correria sem saber o que pensar ou dizer.

Com lágrimas escapando de meus olhos, voltei minha mão com a caneta no papel e escrevi em poucas palavras em felicidade e agradecimento.

Senhor Quinn. Amado marido, pai, avô e bisavô.
Um dia sua vida passou bem na frente de seus olhos. Foi quando realizou que valeu a pena assisti-la.

642 coisas para escrever sobre

#43 – Escreva um pequeno obituário de um estranho que você encontrou recentemente.

642 coisas sobre as quais escrever é um desafio que foi criado em 24h por 35 escritores, que se juntaram para formar o grupo The Grotto em São Francisco. A intenção era juntar mais e mais escritores, formando uma conexão de inspiração.

Os desafios podem ser feitos na ordem, ou escolhidos aleatoriamente. Como sou maluquinha e não conseguirei seguir ordem e fazê-los todos os dias, cada vez escolherei um número.

Por sinal, abandonei por quase 6 meses o projeto mas voltei! Quem quiser ver os itens, só dar uma olhadinha no meu Listography!

28.11.2015

Eu prevejo uma tempestade

Demon & Bella

Ele acelerava o carro paralelo ao meu, parecia que queria me dizer algo. Isso era impossível de estar acontecendo – ele dirigia com a ré engatada.

Inclinou-se na janela de seu carro azul turquesa e sem uma palavra a ser dita, beijou-me.

Demon me puxou para perto dele em um movimento suave e equilibrado, que foi alterado após o choque do sabor de minha boca. 

Afastou-se e encarou meus olhos.

Ele ia me beijar novamente. Tinha certeza!

Estava escrito em cada gesto dele. Em cada expressão de incontentamento do espaço entre nossas bocas. 

Meu pulso bateu forte, e eu inclinei o rosto a fim de encaixar meus lábios nos dele. Senti que os meus joelhos travaram.

Ao nosso redor, as pessoas também diminuíam os passos para nos ver, algumas rindo, outras sentido inveja.

Meus olhos se fecharam e eu desloquei o peso de modo que a dança continuasse durante o beijo.

Era tudo o que eu queria.

Uma onda de calor tomou as partes do meu corpo que ele tocava, espalhando-se em camadas incandecenes, cada vez mais quentes a cada toque dele.

Nunca havia sido beijada daquela forma.

Eu não conseguia respirar, com medo de estragar tudo.

Minhas mãos estavam apoiadas nos ombros de Demon e a apertaram ainda mais quando uma de suas mãos segurou cuidadosamente minha bochecha, como se eu fosse de porcelana.

Ele tinha o gosto de fumaça de madeira queimada.

Eu queria mais.

Ele deu um gemido baixinho, mais calmo do que um trovão distante. Suas mãos me apertaram ainda mais e muita adrenalina correu no meu corpo.

O beijo havia tomado outro rumo. 

Aquecia partes que eu nem lembrava da existência por ter me tornado inabalável.

O que eu faria agora?

17.11.2015

Se pudesse voltar ao dia em que nos conhecemos, viraria e andaria por outro caminho.

Segunda opção A Bela não a Fera

Ela tem a impressão de que sempre está aí para ele mas ele não está sempre ela.

Ela tem sempre que ser a segunda opção?

Parece um tipo de imã que a faz com que tenha esse dom: tudo pela metade – metade do copo vazio para ele, metade cheio para ela. Metade do dia com ele. Meio caminho junto. Muitos segredos. Sumiços que geram a certeza de que algo mais tem por aí.

E quando ele se vê sozinho, a procura.

Sua alegria de pensar que ele está pensando nela, faz com que esqueça todas as babaquices que ele já fez e volta a se derreter por palavras.

Ela pergunta para o cosmos, todas as noites, porquê diabos tem que ser feita de segunda opção. De tapa buracos.

Nesse momento ela entendeu que ele não se importa. Que nunca se importou. Que ele só vem quando está sozinho e entediado. Quando nenhuma outra se importa.

Escolha-a ou perca-a.

O encanto acabou.

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