10.11.2015

Autorretrato aos 25 anos.

Autorretrato aos 25 anos.
(Bela Carapinheiro)
Nasceu em 1990, no Litoral Norte de São Paulo.
Nunca teve relacionamentos longos e sonha em ser mãe (na hora certa).
Gosta muito de andar para espairecer.
É anti-social e prefere não falar pelas manhãs.
Não assiste televisão e escuta rádio para não se sentir sozinha.
Usa óculos. Não sabe mais a cor natural do cabelo.
Prefere comida salgada.
Não vive sem música.
Lê mais de quinze livros por ano.
Pretende lançar seu primeiro livro online em dezembro.
Não gosta de bebidas alcoólicas. Prefere elevar a mente naturalmente.
É professora durante a semana e chefe escoteira aos domingos. Ama a crianças.
Gosta de palavrões em outros idiomas.
Sua mente explode de ideias depois que escurece.
Apesar de a acharem sossegada, discorda. É bipolar.
Sua cor preferida é verde oceano.
Detesta a ideia de poligamia (mesmo que não exista a ideia de um ‘relacionamento sério’ em questão).
Tudo o que acontece em seu dia, imagina um novo post para seu blog.
Ama acampar. Adora, no mais alto nível, a natureza.
Deseja juntar somente o necessário em uma mochila e conhecer novos lugares.
Não tem melhores amigos.
Não tem dívidas.
Gostaria de ter mais influência em sua comunidade, ajudando-os se possível.
Mal começou a vida e não se imagina chegando a meia idade.

27.09.2015

Noites em branco, desordem não só na cama mas na mente

Noites em branco

“Me importo muito com você” É o que penso, e, até às vezes falo em voz alta quando ela dá uma de esperta, desmarcando algum encontro com uma das suas dezenas de desculpinhas, que acabam se repetindo sem nem perceber.
Ela era uma mulher encantadora e eu nunca me dei conta disso. Ela costumava ser doce, me mandava mensagens pela manhã, e se eu respondesse depois do meio dia lá vinha me perguntar o motivo de eu ter acordado tão tarde, ou se dormi bem. Na cabecinha dela, eu havia passado parte da noite em claro conquistando alguma inocente, fingindo estar apaixonado, em um motel barato ou transando no meu quarto às duas da madrugada.

Ela não sabia lidar com o silêncio, odiava minha indiferença. Fazia isso porque tinha de aceitar o fato de não termos nada sério, ela não poderia me cobrar, e, eu me divertia com o seu pequeno sofrimento, pois eu a machucava e era o único que poderia curá-la. Tinha-na em mãos e quando estava sem ânimo para investir em outra transa casual ou desempenhar meu papel de apaixonado pra alguma menina, era pra ela que eu ligava, afinal, mesmo passando da meia noite sabia que ela estaria lá me esperando.
E era aceito. Mesmo com cheiro de suor, com sexo estampado no rosto, talvez com o perfume de outra na roupa e com as costas um tanto arranhadas. Lá estava eu na frente da sua casa, ela me abraçava forte e dizia que me queria por perto.

Não gostava dessa parte, pois pesava a consciência por não tratá-la bem mas não o suficiente pra dar seu devido valor ou pelo menos ficar um pouco mais como ela sempre pedia.

Mesmo com meus erros imperdoáveis ela continuava atendendo minhas ligações no segundo toque, respondendo minhas mensagens de madrugada, comprando algo para que cozinharmos juntos ou escrevendo uma carta. Eu aproveitava o fato de ela me amar tão absurdamente e tinha certeza que mesmo se eu não ficasse uns minutos a mais com ela, poderia tê-la novamente.

Sabia que não era certo, mas não imaginava o quanto doía nela ter que dizer tchau, nem que a machucava ter que sair da minha casa se sentindo usada, me abraçar apertado sabendo que não era a única. Não sabia que ela chorava só por causa daquela mensagem visualizada que não havia sido respondida, ou como da vez que prometi ir visitá-la e só dei as caras dois dias depois com um ‘oi, o final de semana foi louco, sobrevivi, ok?’ idiota por mensagem. Eu não sabia, mas também não me preocupava em me aprofundar no assunto, ela era minha e ponto final, não precisaria me estressar tendo uma longa conversa, não pediria desculpas e não perguntaria como ela se sentia afinal: não corria o risco de perdê-la.

Mas perdi. Não foi de uma hora para outra, foi aos poucos, como quando seguramos algo leve nas mãos com os braços estendidos por cinco minutos e achamos que podemos carregar por horas, mas uma hora os braços doem e você cansa. Ela foi se cansando, até chegar a exaustão e perceber que me segurar por cinco minutos e me perder por muitos dias não valeria a pena, que ter um pouco de mim nunca seria o suficiente. Ela percebeu que tinha fome de amor e se alimentava de indiferença, de um celular desligado, mensagens não respondidas, travesseiros cobertos de lágrimas e noites em claro.

Então após dias sem contato me dei conta da saudade que sentia dela. Do quanto ela era bonita com aquele coloridão de suas tattos contrastadas nas minhas preto, branco e vermelho. O cabelo multicolor caído de qualquer jeito sobre seus ombros e a cara de sono ao dormir em minha barriga. Senti falta dos seus ciúmes disfarçados em comentários brincalhões, de como eu adorava o gosto que ela tinha por leitura, a vaidade dela e como era engraçado o fato de ela ser fraca para bebida.

Passei algum tempo ouvindo músicas que eu nunca gostei porque sabia que ela gostava e acabei encontrando sem querer um espaço no canto do meu guarda roupas que escondia as cartas dela. Senti sua dor ao assimilar que destruí aquele sentimento bom que havia nela com as minhas brincadeiras sobre coisas que para ela eram sérias.

Ela é tudo que um cara poderia querer: bonita, inteligente, carinhosa, alto astral e boa de cama. Totalmente entregue, totalmente apaixonada, meu desejo para ela era uma ordem, estava disposta à tudo para me ver sorrir, esperava com todas as suas forças e restos de esperança que um dia eu a visse de maneira diferente e a amasse de volta.

E agora eu só queria que ela me amasse de novo. Só agora percebo o quanto meu ego era ridiculamente grande. Preferi ter muitas em vez de apenas uma que faria qualquer coisa por mim. ‘Tive dias nostálgicos e percebi que o visor do meu celular já não avisava que havia mensagens dela ao acordar, não havia chamadas perdidas, não havia boas lembranças da noite passada, nem o cheiro do seu perfume caro na minha blusa. ‘Ela deve estar fazendo charme, não pode ter simplesmente parado de me amar’. Mas parou. Nenhum amor suporta tantos erros, tanta desvalorização, tanta grosseria. Ninguém consegue amar sem ser correspondido. O amor pode permanecer, mas a vontade de ser feliz será maior, até o dia em que a menina acorda e já não espera mais uma ligação sua, até a hora em que sua ausência já não machucará mais, pois ela terá se acostumado. Até o dia em que você ligar ansioso brincando com ela ao dizer ‘para de graça e vê se começa a me amar’ e ela fazer seu coração bater forte, despedaçado e após um longo silêncio responder ‘eu amei’.
Ela inverteu o jogo, é ela quem faz as regras, quando estou com outra desejo que seja ela, quando entro no meu quarto as lembranças dela estão por toda parte, é do beijo dela que eu preciso, é a voz dela pedindo um abraço que eu quero escutar, é aquele carinho que arrepia a nuca e o jeito de fazer amor.

E sou eu que agora durmo tarde e espero ansioso olhando o celular implorando por algum sinal, aguardando ela me escolher como segunda opção.

— O que eu fiz?
— Nada, só cansei.
— De mim?
— De ser segunda opção.

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